Conto

História de Uma Pessoa Real - Parte IX

janeiro 12, 2011

Princesa Isabel ganhou Divinha aos 15 anos. Como era muito imatura para cuidar e não tinha tempo, porque vivia correndo atrás de Pinguço Mor, pai de Divinha, quem a criou até os 7 anos foi Santíssima, sua mãe. Divinha era feliz quando sua avó era viva, nessa época não apanhava e era tratada a pão de ló (lê-se: mimada). Princesa Isabel mais parecia sua irmã do que mãe, como estava na certidão de nascimento. Até os 7 anos Divinha foi feliz de verdade, com todas as letras, não foi mais porque sua avó ficou gravemente doente e faleceu no dia 15/10/1999, para seu rápido entristecimento que levará até o fim dos seus dias. Dor maior não há. Desde então, ela é criada pela Princesa Isabel, virando assim então a Escrava Divinha. Aos 8 anos, o que ela mais gostava era de gibis, aprendeu a ler com eles. Passava horas e horas sentada no sofá lendo 3 vezes ou mais a mesma coisa. Sempre foi muito tímida, quieta e carente desde que Santíssima se foi para nunca mais voltar. Princesa Isabel, casou-se novamente quando Divinha tinha apenas 2 anos e permaneceram até os 11 anos casados. Ela trabalhava noite e dia, em casa ficava apenas a enteada e o padrasto, até que um dia ele começou a abusar dela. No começo, ela achava estranho, tinha vontade de gritar, mas não conseguia e aquilo foi se prolongando por mais 3 anos. De tanto ficar sozinha com ele, ela foi gostando, porque ele não maltratava, preenchia a lacuna que Pinguço Mor sempre deixou em aberto, ele era a sua figura paterna apesar dos lamentáveis acontecimentos. Quando a história veio a tona todos a julgaram como sem vergonha, mas ninguém sabia o que ela sentia, o que ela passava, o quanto era espancada por nada aos 8 anos (continuou apanhando até os 17), que ela sofria com a perda da sua avó tão amada e que depois de sua avó recebeu mais carinho do abusador do que de sua própria mãe. Aos 9 anos, ganhou um irmão - filho do padrasto - chamado Divino. A partir do 3º mês de vida quem começou a cuidá-lo foi ninguém mais, ninguém menos que a escrava. Aprendeu a riscar um fósforo a base de socos e tapas, porque tinha que alimentá-lo, exclusivamente. Aprendeu a deixar de ser criança, de ter infância. Não podia mais brincar na rua, se saísse tinha que ser com ele nos braços. Tudo que fazia era com ele junto. Ficavam os dois sozinhos em casa e ela saia no portão "escondido" para conversar com os seus amigos, mas sempre tinha uma vizinha fofoqueira para contar e no final do dia sempre apanhava, enquanto não escorresse sangue não parava de apanhar. Todo dia era a mesma coisa. A Princesa Isabel não enxergava que sua filha só queria ser feliz, ser criança, ser amada e cuidada como deveria. Com o passar do tempo, Divinha foi deixando de amar sua mãe como devia e chorava até dormir todas as noites lembrando de Santíssima. Divino sempre recebeu o amor em dobro. Hoje com a mesma idade que sua irmã quando ela começou a cuidá-lo não apanha e não faz nem a metade em casa como a escrava fazia e ainda faz. Nunca foi humilhado e nem cuspido por sua mãe. É tratado como um rei, suas vontades são feitas, sem um pio. Coisas que nunca aconteceram com a Escrava. Princesa Isabel pergunta o porque que a Divinha não a abraça, não faz declarações de amor e nem a beija como seu irmão. Ela parece esquecer do passado, do quanto a espancou até sair rios de sangue, da falta de atenção, da sua imaturidade absurda. Até os 17, apanhou e muito. Nos dias de hoje, com 18 anos não apanha mais, mas seu psicológico apanha muito e todos os dias. A Escrava prepara o lanche, passa a roupa, penteia o cabelo, alcança toalha, alcança sapato e arruma a bolsa, tudo isso exclusivamente para sua mãe. Fora os cuidados com Divino e com a casa, porque a Princesa não faz nada em casa, não lava a louça nem a que utiliza e muito menos a roupa que veste. Tudo é nas costas da Escrava desde os 9 anos. Faz tudo isso e nunca é reconhecida, sempre que Isabel tem a oportunidade de humilhá-la, menosprezar seus talentos, faz sem dó nem piedade. Tem vezes que Divinha até pensa em pegar suas roupas e ir embora, mas pra onde? Não há outro lugar para morar, por enquanto. Cansada de tanto apanhar e ser humilhada, ela subiu em um pedestal e denominou-se A DIVA, nela ninguém mais encosta, ninguém mais atinge, nem com palavras e muito menos com socos. Só assim para ela escapar e mascarar todo o seu sofrimento diário. Dá graças a Deus (que Deus a perdoe) quando sua mãe sai de casa todos os dias, pois é assim que ela pode usufruir do pouco de liberdade que tem. Por causa de Divino, muita coisa na sua vida foi interrompida, não foi feita. Nunca pôde cultivar amizades, pois não podia sair, porque tinha que ficar em casa arrumando e cuidando dele. Até hoje não tem amigos, é carente de todos os sentimentos, sofre e chora. Torço para que um dia essa situação melhore e ela volte a ser feliz como até seus 7 anos, com certeza que não será por inteiro, pois Santíssima não estará junto, será pela metade.
Quem acompanha meu blog vai entender tudo muito bem.
Tomara que alguém leia.

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10 Comentários

  1. Estou aqui derramando rios de agua!
    Eu me identifiquei um pouco pois tb aprendi a ler com gibis, e tb tive padrasto por um tempo, mas as outras coisas na minha vida foram totalmente diferente! Fiquei chocada, mas o triste é que acontece com muita gente ainda.
    Acho que escrever é bom, pois funciona como terapia. E quem passa por tudo isso e ainda se torna uma pessoa bo, é porque é realmente muito, muito forte.

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  2. Eu espero mesmo, que comece a criar asas de verdade, com seus 18 anos. Creio que você deve se sentir orgulhosa de você mesmo, se não se sente, deveria. Hoje em dia, o que não falta são maus caminhos para "aliviar a dor". E em vez disso, está escrevendo palavras doces, no seu blog. Desejo tudo de bom, de verdade, DIVA !

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  3. Tudo vai passar .. daqui a alguns anos tu vai olhar pra trás e ver pelo tudo que já passou . Tenha orgulho de si mesma , pois têm pessoas que não passaram nem a metade do que ti já passou e ficam reclamando da vida o tempo todo . TE AME pelo que tu é e pelo que tu fez.

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  4. Ahh eu acompanho seu blog,mas não acompanhei o conto =/

    Beijos

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  5. Ah que triste e a vida de Divinha,
    O importante de Divinha e ela não se entregar ser firme e forte, assim como uma Diva, tomara que um dia ela encontre a felicidade. ^^

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  6. De divinha à Diva... é assim que se faz !

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  7. Wow, vou acompanhar seus contos, adorei este!

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  8. Apesar de todo sofrimento a vida vale e pode mais.
    Cadinho RoCo

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  9. Nati, foi apenas um conto, é real ou quase real?
    Se for, MEU DEUS!, a parte de ser abusada e espancada foi o que mais me chocou.
    Não posso imaginar como seja carregar um trauma assim, mas não é nada fácil e leve.
    Puxa, que a DIVA supere isso de verdade e possa ser feliz um dia. :S
    Fiquei triste ao ler isso, sério.
    É duro saber que isso existe no mundo, ainda mais saber que aconteceu com alguém que a gente conhece.

    Um abraço, Nati.
    Supere.

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